A fofoca prejudica quem fala e quem ouve

 

3 macacos sábios great

Na sociedade do espetáculo e das revistas de celebridade, falar da vida alheia virou hábito. Não há, em princípio, nada de errado em diagnosticar a vida alheia, em especial quando o diagnóstico tem origem em sentimentos de admiração ou compaixão.

Contudo, o que se vê em muitas rodas de conversa não é um diálogo saudável e inspirador sobre o outro, mas a famosa fofoca ou maledicência que, para longe de tentar resolver algum problema, visa mesmo criar confusão.

De início, é preciso alertar que a maledicência prejudica quem a profere e quem a ouve. O primeiro alimenta o veneno que há em sua alma e o propaga para o mundo e o segundo se contamina e pode acabar indo pelo mesmo caminho.

Já diria Nilton Bonder em sua obra “O sagrado”, que o abençoado não será amaldiçoado e o amaldiçoado não será abençoado. Quer isto dizer que é uma ilusão acreditar que, por meio de alguma espécie de desejo ou fofoca, é possível, de fato, prejudicar o outro. Com efeito, se não temos o poder de modificar ninguém, menos ainda temos o poder de afetar sua vida de qualquer modo. Apenas se esse outro se deixar abalar é que poderia haver algum efeito e, aí, não seria obra do fofoqueiro, mas do “fofocado”.

Portanto, as únicas pessoas que podem, de fato, se prejudicar com a maledicência são as que a proferem e as lhe dão ouvidos. E se o sujeito alvo da difamação “perder” algum “amigo” em virtude disso, na verdade amigo não perdeu, se livrou de alguém que, por algum motivo, já procurava uma razão para se afastar. Quem ouve uma fofoca e acredita no que houve sem verificar  os fatos se iguala ao fofoqueiro e, por certo, bom amigo não é nem nunca será. Basta lembrar dos macaquinhos chineses da foto acima: não fale o mal, não ouça o mal, não veja o mal.

Consequência lógica do raciocínio acima é concluir que quem se envolve nesse tipo de conversa revela seu próprio caráter e não o da pessoa alvo da intriga.

Não acredito que haja uma única criatura que nunca, em tempo algum, tenha se envolvido nesse tipo de conversa (ninguém é imaculado). O importante é não fazer disso um hábito.  É o falatório habitual que revela o íntimo de quem fala. Desabafos são normais, mas o hábito, esse sim é nefasto.

Quem tem esse hábito não deve, contudo, se culpar. Ao contrário, deve reconhecer isso com acolhimento e avaliar, com total sinceridade e peito aberto, as razões que o levaram a criar esse hábito.

Em geral, aquilo que criticamos no outro ou bem é algo que não gostamos nem aceitamos em nós mesmo ou bem é algo que invejamos e gostaríamos que o outro não tivesse (porque se quiséssemos conquistar seria cobiça e não inveja e estaríamos indo à luta e não fofocando). Em qualquer caso, a origem é uma não aceitação de si mesmo e o desejo de prejudicar o outro, na ilusão de que isso (i) é possível; e (ii) nos trará alguma alegria.

Sejamos sinceros, inexiste alegria nas intenções que visam o prejuízo alheio, ninguém gera alegria plantando discórdia, é uma equação impossível. Pelo contrário, quem assim age propaga negatividade e sentimentos nocivos e se contamina e se afunda na lama da insatisfação ainda mais. Sentimentos negativos devem ser afastados de nossa mente e não propagados pela fala.

Ninguém está a salvo de escorregar por esse caminho vez ou outra, portanto, é preciso muita disciplina e sinceridade consigo mesmo para identificar quando isso acontece e já se desviar desse caminho.

Por fim, é recomendável não participar de conversas dessa natureza, diga que você não se sente bem falando dos outros e que prefere não participar da conversa, preserve sua alma da discórdia. Pessoas que estão sempre a falar da vida alheia vão falar de você também, então, melhor nem criar muita intimidade.

Quem não aceitar esse tipo de postura não te respeita, quer ditar como você deve levar a sua vida. Você tem o direito de não querer participar de conversas que te façam mal, mas deve manifestar sua vontade de modo educado e calmo, sem julgar o outro.

Lembre-se de que você peca de forma diferente, mas também peca. Portanto, tenha paciência e apenas não se deixe contaminar e, se no pensamento vier um julgamento em relação ao fofoqueiro, afaste-o e procure lembrar de algum mau habito seu e trate de tentar mudá-lo, afinal, o mau hábito alheio não é problema seu.

A felicidade simples

523149221
You learn something new every day

Fernando Pessoa uma vez escreveu: “às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”. Confesso que quando li isso anos atrás não consegui compreender, me identificar.

Recentemente eu resgatei uma gatinha bebê da morte (apanhou de um gato e foi jogada fora, toda machucada). Uma semana depois ela está aqui ao meu lado, devorando o zíper do estojo e tentando de tudo para subir no teclado do computador enquanto escrevo. Se recuperou e está a turbo gata.

Fico vendo a Lilly brincar e crescer e consigo sentir o que o poeta sentiu ao ouvir o vento passar. É quase mágico poder sentir tanta felicidade e gratidão por algo tão singelo. Olhar a Lilly me trouxe paz e alegria.

É, vale à pena ter nascido só para presenciar essas pequenas coisas que engrandecem a vida.

Os juízes da vida

themis

Lembro-me, quando decidi estudar para ser juíza, de me perguntarem se eu não tinha medo da enorme responsabilidade que me aguardava, isto é, de julgar o destino das pessoas.

Penso que o juiz faz isso investido de um poder que lhe é conferido pelo Estado, como parte de um dos três poderes da República e dentro de um jogo com regras (leis) bastante claras e muitas vezes engessadas. Portanto, sua margem de discricionariedade tem limites bem delineados, traçados pelos representantes do povo, eleitos pelo voto. Ademais, a sentença é proferida após longo contraditório e ampla defesa, devendo ser funamentada.

Contudo, as mesmas pessoas que se assustam com a responsabilidade de um juiz proferem inúmeros julgamentos ao longo de suas vidas e no âmbito de suas relações pessoais e profissionais, que, muitas vezes, selam o destino do “réu” tanto quanto uma sentança o faria.

Esses julgamentos que fazemos na vida privada podem ser até mais sérios, pois não são feitos com respaldo em regras bem definidas nem com qualquer preocupação de imparcialidade ou contraditório e ampla defesas prévios. Pelo contrário, advêm de emoções mal trabalhadas, quando não do ódio, cuja real origem muitas vezes nem está no plano consciente.

A cada vez que, em nossa vida privada, proferimos um julgamento em relação a alguém fazemos o papel de juiz e, por conseguinte, deveríamos nos pautar pelas regras da razoabilidade, proporcionalidade, compaixão e impessoalidade.

Precisamos refletir se a medida que estamos tomando é necessária ao caso, se é adequada à situação e, depois, se é proporcional. Para isso é preciso se despir de emoções e interesses pessoais, bem como de inseguranças e necessidade de ter razão ou vencer. Se for impossível ter essa impessoalidade, a razão manda silenciar. Porque o julgamento será viciado e, muito provavelmente, irá gerar dor e/ou prejuízo a alguém.

Veja-se que o símbolo da Justiça é representado por uma deusa que segura uma balança de pratos (i.e., deve-se ouvir atentamente ambos os lados da história); venda nos olhos (i.e., deve-se ficar cego a preconceitos e emoções) e uma espada (i.e., é preciso ter coragem e assertividade para tomar a decisão necessária e imparcial e não a que lhe convém). A balança, por sua vez, tem um fiel, que é a razão com a qual se analisam ambos os lados de cada história.

Quaquer julgamento diferente disso é arbitrário, para não dizer leviano ou mal intencionado e isso se aplica a cada um de nós em nossas vidas cotidianas!

Quantas carreiras, amizades, reacionamentos, etc já foram prejudicados por julgamentos eivados de emoções traiçoeiras e negativas nesse mundo? Quantas sentenças sem direito de defesa já foram proferidas na vida privada?

Aliás, a cada vez que julgamos alguém deveríamos parar para refletir com base em que nos colocamos nessa posição de superioridade. Certamente há questões mal resolvidas internas que geram fragilidades, as quais, inconscientemente, buscamos proteger com a máscara da superioridade.

Todos temos responsabilidade pelas palavras ditas e, embora o direito à livre expressão seja constitucionalmente garantido, seu exercício não é ilimitado.

Injúria e difamação ainda são crimes no Código Penal, tanto quanto preconceitos raciais também são puníveis. Portanto, antes de julgar alguém na vida privada, é recomendável pensar se o conteúdo dessa “sentença” esbarra nos limites da injúria, da difamação e de outras leis. Ainda, é preciso identificar as consequências desses julgamentos, a fim de não prejudicarmos alguém apenas para proteger um orgulho ou insegurança que só nos afastarão das pessoas.

Em suma, nem só os juízes togados têm a responsabilidade por julgamentos, os “juízes” da vida também o tem, e muito!